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Alice e Lucas compraram a casa dos sonhos, mas ouviram barulhos assustadores no porão na primeira noite — e, quando encontraram um homem misterioso na manhã seguinte, a ligação para a polícia caiu inesperadamente!

ProfessorProfessorStory EditorOctober 21, 202610 min read
Alice e Lucas compraram a casa dos sonhos, mas ouviram barulhos assustadores no porão na primeira noite — e, quando encontraram um homem misterioso na manhã seguinte, a ligação para a polícia caiu inesperadamente!
Mystery & Suspense#27

PARTE 1 — OS BARULHOS QUE VINHAM DO PORÃO

Na manhã seguinte à mudança, Alice Ferreira desceu lentamente os degraus do porão, segurando uma lanterna com as mãos trêmulas.

Seu marido, Lucas Almeida, caminhava logo atrás.

Durante toda a noite, os dois tinham ouvido ruídos estranhos vindos debaixo da casa. Primeiro, pancadas metálicas. Depois, algo parecido com passos arrastados. E, pouco antes do amanhecer, um som que Alice jurava ser a voz de alguém pedindo ajuda.

Lucas acreditava que encontrariam algum encanamento defeituoso ou um animal preso.

Mas, quando a luz da lanterna alcançou o fundo do porão, ele parou imediatamente.

Havia um homem parado entre as prateleiras antigas.

Era muito alto, provavelmente tinha mais de um metro e noventa, e usava roupas gastas. Seu rosto estava pálido, os olhos fundos e a expressão parecia carregar um cansaço difícil de explicar.

O desconhecido ergueu lentamente a cabeça.

Alice soltou um grito.

— Lucas… quem é esse homem?

O marido não respondeu.

Porque, naquele instante, o estranho começou a caminhar na direção deles.

E nenhum dos dois imaginava que aquele encontro tinha relação com um segredo escondido muito antes de comprarem a casa.

Tudo havia começado apenas dois dias antes, nos arredores de Curitiba.

Alice, de vinte e nove anos, e Lucas, de trinta e dois, estavam casados havia quatro anos.

Durante muito tempo, tinham morado em um apartamento pequeno, onde o barulho dos vizinhos e a falta de espaço faziam parte da rotina.

Os dois economizaram durante anos para realizar um sonho: comprar a primeira casa.

Quando encontraram o imóvel anunciado por um preço que cabia no orçamento, mal conseguiram acreditar.

Era uma residência antiga, mas aparentemente bem conservada, com dois andares, um pequeno jardim e uma garagem coberta.

Alice se apaixonou imediatamente pela varanda.

Lucas gostou da sala espaçosa, onde pretendia montar um escritório.

— Consegue imaginar nossos domingos aqui? — perguntou Alice durante a primeira visita.

Lucas sorriu.

— Consigo imaginar você reclamando porque vou deixar minhas ferramentas espalhadas pela garagem.

Ela riu e segurou a mão dele.

Aquela casa parecia representar o início de uma nova fase.

Havia apenas um detalhe que os dois quase não observaram.

O porão.

Durante a visita, o antigo proprietário, Marcos Carvalho, de cinquenta e oito anos, acompanhou o casal.

Era um homem educado, embora demonstrasse certa pressa em concluir a venda.

Quando Lucas perguntou sobre o porão, Marcos apontou para uma porta estreita próxima à cozinha.

— Fica ali embaixo. É só um depósito antigo.

— Podemos dar uma olhada? — perguntou Alice.

Marcos hesitou por um instante.

— Claro. Mas não tem nada interessante. Algumas prateleiras, caixas vazias e instalações antigas.

Lucas abriu a porta.

Uma escada de concreto descia até um espaço pouco iluminado.

O ar era mais frio naquela parte da casa.

Alice permaneceu no alto dos degraus enquanto Lucas descia alguns passos.

— A iluminação não funciona? — perguntou ele.

— Precisa trocar algumas lâmpadas — respondeu Marcos. — Eu quase nunca entrava aí.

Lucas tentou enxergar além das prateleiras.

No fundo, havia um corredor estreito parcialmente escondido por móveis cobertos de poeira.

— Aquilo leva para onde?

Marcos respondeu rapidamente:

— Não leva a lugar nenhum. É apenas uma parte antiga da construção.

Antes que Lucas pudesse perguntar mais alguma coisa, o proprietário sugeriu que voltassem para conhecer o jardim.

Naquele momento, o casal não viu motivo para desconfiar.

Casas antigas costumavam ter espaços mal aproveitados.

E o porão não era importante para os planos deles.

A negociação aconteceu rapidamente.

Marcos afirmou que precisava vender o imóvel por motivos pessoais e que poderia entregar as chaves assim que a documentação estivesse concluída.

Lucas chegou a comentar com Alice:

— É estranho ele querer sair tão depressa.

— Talvez precise se mudar por causa do trabalho.

— Pode ser.

Apesar da pressa do vendedor, o casal procurou conferir os documentos da propriedade antes de fechar o negócio.

Não encontraram nada que os impedisse de prosseguir.

Pouco tempo depois, a casa finalmente era deles.

No dia da mudança, uma pequena equipe transportou os móveis.

Alice passou a tarde organizando a cozinha.

Lucas montou a cama e começou a instalar os equipamentos do escritório.

Ao anoitecer, os dois estavam exaustos.

Sentaram-se no chão da sala, rodeados por caixas de papelão, e dividiram uma pizza.

— Nossa primeira noite na nossa casa — disse Alice, sorrindo.

Lucas ergueu o copo.

— À nossa nova vida.

Ela encostou a cabeça no ombro dele.

Por alguns minutos, tudo pareceu perfeito.

Então ouviram um barulho.

CLANG.

Um som metálico, distante, vindo de algum lugar abaixo do piso.

Alice ergueu a cabeça.

— Você ouviu?

Lucas olhou ao redor.

— Deve ser algum cano.

Os dois permaneceram em silêncio.

Nada aconteceu.

Alice voltou a comer.

Mas, alguns minutos depois, o ruído se repetiu.

Dessa vez, foram três pancadas.

CLANG. CLANG. CLANG.

Lucas franziu a testa.

— Certo… isso foi estranho.

Alice olhou para a porta que levava ao porão.

— Você acha que tem alguém lá embaixo?

— Não. A casa estava vazia quando chegamos.

Ele se levantou e verificou as portas externas.

Estavam trancadas.

As janelas também.

— Provavelmente é uma tubulação antiga. Amanhã eu vejo.

Alice tentou concordar.

Mas alguma coisa naquele som a deixava desconfortável.

Não parecia um estalo provocado pela madeira.

As pancadas tinham intervalos.

Como se alguém estivesse batendo deliberadamente em alguma coisa.

Perto da meia-noite, Alice acordou.

A casa estava silenciosa.

Lucas dormia ao seu lado.

Ela olhou para o teto, tentando entender o que a havia despertado.

Então ouviu novamente.

Um ruído baixo.

Arrastado.

Vindo debaixo do quarto.

Alice permaneceu imóvel.

O som se repetiu.

Dessa vez, pareceu acompanhado por uma vibração metálica.

Ela tocou o braço do marido.

— Lucas…

Ele resmungou, ainda sonolento.

— O que foi?

— Os barulhos voltaram.

Lucas abriu os olhos.

Os dois ficaram em silêncio.

Por alguns segundos, não ouviram nada.

Então alguma coisa bateu com força no andar inferior.

Lucas se sentou imediatamente.

— Isso veio do porão.

Alice apertou o lençol.

— Eu disse que tinha alguma coisa estranha.

Ele pegou o celular e verificou o horário.

00h37.

— Vou olhar a porta.

— Você vai descer?

Lucas hesitou.

A verdade era que também estava assustado.

Ele não sabia o que poderia encontrar em um ambiente escuro, cheio de móveis antigos e instalações desconhecidas.

— Não agora. Vou verificar se está tudo fechado. De manhã, descemos juntos.

Alice não gostou da resposta.

Mas também não queria que ele entrasse sozinho naquele lugar durante a madrugada.

Lucas caminhou até a cozinha.

A porta do porão estava fechada.

Ele encostou a mão na maçaneta.

Foi então que ouviu algo do outro lado.

Um barulho curto.

Como se um objeto pesado tivesse sido movimentado.

Lucas retirou a mão.

— Tem algum problema aí embaixo? — perguntou, sem esperar realmente uma resposta.

Silêncio.

Ele conferiu o fechamento da porta e voltou para o quarto.

— Amanhã vamos descobrir de onde vem isso.

Alice percebeu que a voz dele estava menos tranquila do que antes.

Às três e dezessete da manhã, Alice acordou novamente.

Dessa vez, não foi uma pancada que a despertou.

Foi um som abafado.

Parecia alguém tentando falar.

Ela ficou sentada na cama, escutando.

— Lucas!

Ele abriu os olhos.

— O quê?

— Escuta.

Os dois prenderam a respiração.

De algum ponto distante da casa veio um som fraco.

Uma espécie de chamado, interrompido quase imediatamente.

Alice sentiu um arrepio.

— Você ouviu uma voz?

Lucas demorou a responder.

— Ouvi alguma coisa. Mas pode ter vindo da rua.

— Da rua? Lucas, parecia vir debaixo da gente.

Ele pegou o celular.

— Vou ligar a iluminação da cozinha e verificar se alguma janela ficou aberta.

Alice segurou seu braço.

— Não me deixa sozinha.

Lucas concordou.

Os dois caminharam até a sala.

Verificaram as janelas e a porta dos fundos.

Nada parecia fora do lugar.

Ao passarem pela cozinha, Alice percebeu algo que não havia notado antes.

Havia uma marca comprida na parte inferior da porta do porão.

Não parecia recente.

Mas dava a impressão de que algum objeto pesado tinha sido arrastado contra a madeira.

— Lucas, olha isso.

Ele se abaixou.

Passou os dedos pela marca.

— Provavelmente aconteceu quando carregaram algum móvel.

Alice olhou para a maçaneta.

— Você tem certeza de que Marcos contou tudo sobre essa casa?

Lucas se levantou.

— Não sei. Mas amanhã vamos verificar.

Naquela noite, os dois quase não conseguiram voltar a dormir.

Quando o sol nasceu, Lucas tentou telefonar para Marcos.

A chamada não foi atendida.

Ele enviou uma mensagem:

«Bom dia, Marcos. Ouvimos alguns barulhos estranhos no porão durante a noite. Existe algum problema conhecido naquela parte da casa?»

Depois preparou café.

Alice apareceu na cozinha, visivelmente cansada.

— Ele respondeu?

— Ainda não.

— Então vamos descer?

Lucas respirou fundo.

— Vamos. Mas primeiro vou pegar uma lanterna.

Ele também colocou o celular no bolso.

Alice pegou a chave da porta dos fundos e a deixou sobre o balcão.

— Se tiver algum animal, saímos e chamamos alguém.

— Combinado.

Os dois abriram a porta do porão.

Um cheiro de umidade subiu pela escada.

Lucas acendeu a lanterna.

A luz revelou os degraus de concreto e as paredes antigas.

Alice desceu primeiro, segurando o corrimão.

Lucas veio logo atrás.

No final da escada, encontraram algumas caixas vazias, móveis cobertos por lençóis e prateleiras de metal.

Durante alguns instantes, tudo parecia normal.

— Talvez o barulho venha daqui — disse Lucas, tocando uma das estantes.

Ela balançou levemente.

Mas o som produzido não se parecia com as pancadas que tinham ouvido.

Alice apontou para o chão.

— Lucas… olha.

Havia marcas na poeira.

Uma sequência irregular atravessava o espaço entre duas prateleiras.

— Alguém passou por aqui — murmurou ela.

Lucas examinou o piso.

As marcas pareciam recentes.

Ele ergueu a lanterna e percebeu que algumas caixas tinham sido deslocadas.

Atrás delas, havia uma passagem estreita que ele não conseguira observar durante a visita.

— Esse corredor… — começou Lucas.

— Marcos disse que não levava a lugar nenhum.

Alice olhou para o fundo.

A escuridão parecia mais profunda naquela parte do porão.

Então ouviram um ruído.

Dessa vez, bem próximo.

Um objeto metálico caiu no chão.

Alice recuou.

— Lucas, vamos embora.

Ele virou a lanterna na direção do som.

O feixe de luz atravessou o corredor.

E parou sobre dois pés imóveis.

Lucas ergueu lentamente a lanterna.

Diante deles estava um homem desconhecido.

Era extremamente alto, tinha a cabeça quase raspada e vestia roupas velhas e desalinhadas.

Seu rosto parecia abatido.

Os olhos acompanhavam cada movimento do casal.

Alice levou a mão à boca.

— Meu Deus…

Lucas tentou manter a calma.

— Senhor? Quem é você?

O desconhecido não respondeu.

Apenas olhou para a escada atrás deles.

Depois voltou os olhos para Lucas.

Sua respiração estava acelerada.

Ele parecia tentar decidir o que fazer.

Lucas deu um passo para trás.

— Esta casa é nossa. Como você entrou aqui?

O homem abriu a boca.

Por um instante, Alice achou que ele diria alguma coisa.

Mas nenhuma palavra saiu.

Em vez disso, ele ergueu uma das mãos.

Seus dedos apontaram para o corredor escuro.

Alice interpretou o gesto como uma ameaça.

— Lucas, sai daqui!

O marido tentou puxá-la em direção à escada.

Mas, naquele momento, o desconhecido deu um passo à frente.

Depois outro.

E começou a caminhar diretamente na direção deles.

Alice gritou.

Lucas segurou sua mão e olhou desesperadamente ao redor.

A escada parecia próxima demais do homem.

À esquerda, havia uma pequena porta de madeira, parcialmente aberta.

— Por aqui! — gritou Lucas.

Os dois correram para dentro do cômodo.

Lucas empurrou a porta e girou a chave que ainda estava na fechadura.

O trinco se encaixou.

Do outro lado, passos se aproximaram.

Alice encostou as costas na parede, tentando controlar a respiração.

— Quem é aquele homem? Como ele entrou na nossa casa?

Lucas tirou o celular do bolso.

— Não sei. Mas vamos chamar a polícia.

Antes que pudesse discar, ouviram algo inesperado.

O homem havia parado diante da porta.

Uma voz rouca, quase inaudível, atravessou a madeira:

— Por favor…

Lucas ficou imóvel.

A voz voltou, um pouco mais forte:

— Vocês… precisam…

Então um barulho metálico ecoou no corredor.

O desconhecido interrompeu a frase.

Alice olhou para o marido.

— Lucas… ele está tentando nos avisar de alguma coisa?

Antes que Lucas respondesse, três pancadas atingiram a porta.

Não eram fortes.

Mas eram exatamente iguais às que tinham ouvido durante a madrugada.

CLANG. CLANG. CLANG.

Lucas olhou para Alice, horrorizado.

O homem diante da porta estava reproduzindo o mesmo sinal que havia vindo do porão durante toda a noite.

E agora, pela primeira vez, o casal começava a suspeitar que aqueles barulhos talvez nunca tivessem sido uma ameaça.

Talvez fossem um pedido de socorro.

Mas, se aquele desconhecido estava pedindo ajuda…

de quem ele tinha tanto medo?

CONTINUA…

PARTE 2 — O HOMEM QUE NINGUÉM DEVERIA ENCONTRAR

As três pancadas ecoaram novamente pela porta do pequeno depósito.

CLANG. CLANG. CLANG.

Alice Ferreira levou as mãos à boca.

Eram exatamente os mesmos sons que ela e o marido tinham ouvido durante a primeira noite naquela casa.

Lucas Almeida permaneceu imóvel, encarando a madeira que os separava do desconhecido.

O homem assustador, com mais de um metro e noventa de altura, estava do outro lado.

Mas agora havia algo ainda mais perturbador.

Antes das pancadas, ele tinha tentado dizer uma frase.

« Vocês… precisam… »

Alice olhou para o marido.

— Lucas, e se ele estiver tentando pedir ajuda?

— Não sabemos quem ele é. Pode estar tentando nos enganar.

Então ouviram uma respiração pesada junto à porta.

Uma voz rouca sussurrou:

— Por favor… escutem…

Lucas deu um passo para trás.

— Quem é você? O que está fazendo na nossa casa?

O desconhecido demorou a responder.

— Eu… preciso sair daqui.

Alice sentiu um arrepio.

— Então por que você não vai embora?

A resposta veio quase inaudível:

— Porque eles vão voltar.

Lucas pegou imediatamente o celular.

— Alice, fique longe da porta.

Ele discou 190.

A chamada demorou alguns segundos para completar.

Finalmente, uma atendente respondeu.

— Polícia Militar. Qual é a emergência?

Lucas começou a falar depressa.

— Minha esposa e eu compramos uma casa. Encontramos um homem desconhecido no porão. Estamos trancados em um cômodo!

— Senhor, tente manter a calma. Qual é o endereço?

Lucas informou a rua, o número da residência e uma referência do bairro, nos arredores de Curitiba.

Alice permaneceu ao lado dele, ouvindo cada palavra.

— O homem está armado? — perguntou a atendente.

— Eu não vi nenhuma arma. Mas ele é muito alto e parece estar nos seguindo. Não sabemos como entrou aqui!

— Uma equipe será acionada. Permaneçam em segurança e não tentem confrontá-lo.

Lucas soltou o ar lentamente.

Por um instante, sentiu alívio.

A polícia sabia onde estavam.

Então a voz da atendente começou a falhar.

— Senhor… preciso que… permaneça…

— Alô?

Uma interferência interrompeu a frase.

— Alô! Está me ouvindo?

A chamada caiu.

Lucas olhou para a tela.

Sem serviço.

— Não! — exclamou.

Alice agarrou seu braço.

— O que aconteceu?

— Perdemos o sinal!

Ele tentou telefonar novamente.

Nada.

O celular continuava sem conexão.

Os dois começaram a gritar por ajuda, esperando que alguém do lado de fora pudesse ouvi-los.

Mas estavam no fundo de um porão, atrás de uma porta grossa.

E ninguém respondeu.

Do outro lado da madeira, os passos do desconhecido se afastaram.

Alice encostou a cabeça na parede.

— Você acha que a polícia conseguiu ouvir nosso endereço?

— Sim. Eu falei tudo antes da ligação cair.

— Então vão chegar?

Lucas hesitou.

— Espero que sim.

Ele olhou ao redor.

O depósito era pequeno.

Havia prateleiras empoeiradas, ferramentas antigas e caixas empilhadas junto à parede.

Uma janela estreita ficava próxima ao teto, mas era pequena demais para permitir que saíssem.

Lucas tentou enviar uma mensagem a Nicolas, seu amigo de trabalho.

O telefone continuava sem sinal.

Alice se aproximou de uma das prateleiras.

— Não entendo uma coisa.

— O quê?

— Se aquele homem queria nos machucar, por que ficou pedindo ajuda?

Lucas não soube responder.

Antes que pudesse pensar em alguma explicação, ouviram algo deslizando pelo chão.

Um pedaço de papel apareceu debaixo da porta.

Alice recuou.

Lucas se abaixou e recolheu a folha.

Nela havia uma frase escrita com letras irregulares.

« NÃO CONFIEM NO HOMEM QUE VENDEU A CASA. »

Lucas releu a mensagem.

Uma vez.

Depois outra.

— Alice…

Ela se aproximou.

— O que está escrito?

Quando leu a frase, seu rosto mudou.

— Marcos?

O nome do antigo proprietário pareceu transformar o medo em uma pergunta ainda mais inquietante.

Como aquele desconhecido sabia quem lhes havia vendido a casa?

Lucas se ajoelhou perto da porta.

— Você conhece Marcos Carvalho?

Durante alguns segundos, ninguém respondeu.

Então a voz rouca voltou.

— Ele… sabia.

— Sabia o quê?

O homem pareceu se afastar.

Lucas insistiu:

— O que Marcos sabia?

Uma batida seca veio do corredor.

Depois, silêncio.

Alice segurou a mão do marido.

— Lucas, você se lembra da visita?

— Lembro.

— Marcos não queria que a gente olhasse o porão.

Lucas pensou no antigo proprietário.

Na pressa em mostrar o jardim.

Na maneira como havia respondido quando perguntaram sobre o corredor atrás das prateleiras.

Na venda concluída rapidamente.

Até aquela manhã, nada disso parecia realmente suspeito.

Agora, porém, cada detalhe ganhava um significado diferente.

— Talvez aquele homem tenha trabalhado aqui — sugeriu Lucas.

— Então por que estaria escondido no porão?

Ele não respondeu.

Enquanto esperavam, Alice começou a procurar algo útil no depósito.

Encontrou uma caixa com velhos documentos, recibos de manutenção e pequenos manuais de equipamentos.

Lucas estava prestes a pedir que ela deixasse tudo no lugar quando percebeu uma folha dobrada.

Era um desenho da planta da casa.

— Espera um minuto.

Ele abriu o papel sobre uma bancada.

O documento parecia antigo.

Mostrava o andar térreo, a garagem e o porão.

Alice apontou para a escada.

— Estamos aqui?

— Sim.

Lucas acompanhou as linhas com o dedo.

A planta indicava o depósito, uma área para equipamentos e um corredor que se estendia além das prateleiras metálicas.

Mas havia algo estranho.

No fundo do desenho aparecia um espaço retangular separado por uma parede grossa.

— Que cômodo é esse? — perguntou Alice.

— Não faço ideia.

Lucas pegou o celular e abriu uma cópia dos documentos da compra que havia salvado anteriormente.

Comparou os dois desenhos.

Na versão entregue durante a negociação, o porão terminava logo depois da área de armazenamento.

O cômodo retangular simplesmente não aparecia.

— Alice, olha isso.

Ela comparou os documentos.

— A planta antiga mostra um espaço a mais?

— Exatamente.

— Pode ter sido fechado durante alguma reforma.

Lucas observou as medidas.

— Pode. Mas ninguém nos falou de uma reforma.

No canto do desenho mais antigo havia uma anotação manuscrita:

« Acesso técnico — autorização restrita. »

Alice sentiu um frio no estômago.

— Por que um depósito doméstico precisaria de autorização restrita?

Um rangido veio do corredor.

Os dois ficaram imóveis.

A voz do desconhecido surgiu novamente.

— Não… façam… barulho.

Lucas se aproximou da porta.

— Precisamos entender o que está acontecendo!

— Escutem…

De repente, ouviram um ruído metálico vindo de uma parte mais distante do porão.

Como o fechamento de uma porta pesada.

Alice olhou para a planta.

— Lucas… aquele corredor fica exatamente atrás desta parede.

O marido ergueu os olhos.

O depósito possuía uma pequena abertura de ventilação, próxima ao teto.

Através dela, era possível enxergar parte do espaço atrás das prateleiras.

Lucas aproximou uma caixa da parede e subiu cuidadosamente para olhar.

No começo, viu apenas escuridão.

Depois, distinguiu um trecho de corredor.

Uma lâmpada fraca.

E, ao fundo, uma porta metálica.

Não parecia uma porta comum de residência.

Era pesada, com uma pequena abertura retangular na parte superior.

Lucas desceu lentamente.

— Alice, tem alguma coisa construída atrás do porão.

— O cômodo que está no desenho?

— Provavelmente.

— E o homem?

Lucas olhou novamente para a porta do depósito.

— Acho que ele estava vindo daquela direção quando o encontramos.

Alice se sentou em uma cadeira antiga.

— Talvez ele seja algum fugitivo.

Lucas a observou.

— Por que você acha isso?

— Olha a aparência dele, Lucas. E aquele lugar… Quem ficaria escondido num porão daquele jeito?

O marido balançou a cabeça.

— Não podemos saber se alguém é perigoso só pela aparência.

Alice assentiu.

Ele tinha razão.

O desconhecido parecia assustador, mas até aquele momento não havia tentado arrombar a porta nem ameaçá-los diretamente.

Pelo contrário.

Tinha falado sobre outras pessoas.

Sobre Marcos.

E sobre precisar sair dali.

Lucas respirou fundo.

— Vamos esperar pela polícia.

Alice concordou.

Então o telefone dele vibrou.

Os dois se sobressaltaram.

A conexão tinha voltado por alguns segundos.

Uma mensagem apareceu na tela.

Era de Marcos Carvalho.

Lucas abriu imediatamente.

« Peço desculpas pela demora. Se o barulho vier da área dos fundos do porão, não mexam nas instalações antigas. Posso passar aí para verificar. »

Alice arregalou os olhos.

— Como ele sabe que o barulho vem dos fundos?

Lucas releu a mensagem.

Ele havia dito apenas que escutara sons estranhos no porão.

Não mencionara o corredor.

Muito menos uma área escondida.

Lucas começou a digitar uma resposta.

Mas Alice segurou seu braço.

— Espera.

— O quê?

— O homem nos avisou para não confiar em Marcos.

Lucas olhou novamente para o desenho antigo.

Pela primeira vez, pensou que talvez o verdadeiro problema não fosse o desconhecido encontrado no porão.

Alguns minutos depois, ouviram passos novamente.

Dessa vez, o homem parecia estar mais próximo.

— Vocês… ainda estão aí?

Lucas respondeu através da porta.

— Estamos esperando a polícia.

Houve um silêncio longo.

Então o desconhecido perguntou:

— Conseguiram falar com eles?

— Sim, antes de o sinal cair.

A respiração do homem se tornou mais rápida.

— Eles precisam encontrar…

Ele interrompeu a frase.

Lucas esperou.

— Encontrar o quê?

— O quarto.

Alice se aproximou da porta.

— Que quarto?

— Atrás… da parede.

Lucas trocou um olhar com a esposa.

O desenho.

O corredor.

A porta metálica.

Tudo parecia apontar para o mesmo lugar.

— Quem construiu aquele quarto? — perguntou Lucas.

O homem não respondeu imediatamente.

Quando finalmente falou, sua voz estava carregada de medo.

— Não fui eu.

Alice sentiu um aperto no peito.

— Você estava preso lá dentro?

O silêncio seguinte pareceu interminável.

Então veio uma resposta:

— Eu só queria… que alguém me ouvisse.

Lucas se lembrou das pancadas durante a madrugada.

Alice também.

E os dois compreenderam que aqueles sons podiam ter sido produzidos por alguém tentando chamar a atenção.

Mas ainda havia muitas perguntas sem resposta.

Quem era aquele homem?

Por que estava naquele lugar?

E quem teria motivos para esconder um cômodo inteiro debaixo de uma casa?

Lucas colocou novamente os dois desenhos lado a lado.

Na planta antiga, o espaço escondido possuía uma entrada pelo corredor.

Na versão da compra, toda aquela seção havia desaparecido.

O antigo proprietário não mencionara sua existência durante a visita.

Mesmo que pudesse haver uma explicação legítima para a diferença, Lucas percebeu que precisava mostrá-la à polícia.

Pegou o celular para fotografar os documentos.

Foi então que ouviu um som vindo do andar superior.

Uma porta se abrindo.

Ele parou.

Alice percebeu sua expressão.

— O que foi?

Lucas levou um dedo aos lábios.

Passos ecoaram acima deles.

Lentos.

Firmes.

Depois veio o som inconfundível de um molho de chaves.

Alice sussurrou:

— A polícia chegou?

Lucas não respondeu.

Se fossem policiais, provavelmente anunciariam sua presença.

Mas ninguém disse nada.

Em vez disso, ouviram a porta que dava acesso ao porão se abrir.

O desconhecido, que continuava do lado de fora do depósito, também ouviu.

Seus passos cessaram imediatamente.

Alice aproximou o ouvido da porta.

Uma voz masculina veio do alto da escada.

— Tem alguém aí embaixo?

Lucas sentiu o coração acelerar.

Não era uma voz conhecida.

O homem desceu alguns degraus.

— Eu sei que vocês estão aqui.

Alice segurou a mão do marido com força.

Lucas tentou verificar o celular.

Sem serviço novamente.

Do outro lado da porta, o desconhecido sussurrou:

— Não respondam.

A voz que vinha da escada chamou novamente.

Dessa vez, com uma frieza que fez Alice estremecer:

— Davi?

Lucas ergueu a cabeça.

Davi.

Finalmente, tinham ouvido o nome do homem encontrado no porão.

Mas o detalhe mais assustador era outro.

Quem acabara de entrar na casa conhecia aquele desconhecido.

Passos desceram os últimos degraus.

Houve um breve silêncio.

Depois, o som de algo sendo colocado sobre uma superfície metálica.

Alice olhou desesperadamente para Lucas.

— Quem é esse homem?

Ele não sabia.

Então ouviram a voz rouca de Davi, muito perto da porta.

— Eu avisei…

Lucas se ajoelhou.

— Davi, quem entrou aqui?

A resposta veio como um sussurro:

— Ele voltou.

Logo depois, outra voz ecoou no corredor.

— Davi, você cometeu um grande erro saindo daquele quarto.

Alice ficou imóvel.

O homem que acabara de chegar continuou:

— E parece que temos visitas.

O som das chaves se aproximou.

Lucas olhou para a fechadura do depósito.

Do lado de fora, alguém parou diante da porta.

Uma chave foi introduzida lentamente.

Alice percebeu, horrorizada, que o novo visitante tinha acesso ao cômodo onde eles estavam escondidos.

Lucas segurou a maçaneta por instinto.

Mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa, a voz desconhecida pronunciou uma última frase:

— Vocês compraram esta casa sem saber o que havia debaixo dela. Agora vão ter que me escutar.

A chave começou a girar.

E Alice finalmente compreendeu que a descoberta daquele homem assustador talvez tivesse sido apenas o começo do verdadeiro pesadelo.

Porque alguém havia construído um cômodo secreto no porão, escondido sua existência dos compradores e acabado de voltar para impedir que o segredo fosse revelado.

Mas quem era Davi? Por que aquele desconhecido o conhecia? E o que realmente acontecera dentro do quarto que não aparecia nos documentos da casa?

CONTINUA…

PARTE 3 — A PRISÃO SECRETA DEBAIXO DA CASA

A chave girou lentamente na fechadura.

Alice Ferreira recuou até a parede do depósito, enquanto Lucas Almeida tentava impedir que a porta se abrisse.

Do outro lado, uma voz masculina falou com assustadora tranquilidade:

— Não adianta se esconderem. Sei que vocês estão aí.

Lucas olhou desesperadamente para o celular.

Continuava sem sinal.

A polícia havia recebido o endereço da casa antes de a ligação cair, mas o casal não sabia quanto tempo levaria para uma equipe chegar.

Então ouviram uma segunda voz.

Era o homem que tinham encontrado no porão.

— Deixe essas pessoas em paz.

O desconhecido que acabara de entrar respondeu:

— Davi, você já causou problemas suficientes.

Alice e Lucas trocaram um olhar.

Finalmente, sabiam o nome do homem assustador.

Mas uma pergunta parecia ainda mais importante.

Por que aquele visitante conhecia Davi?

E por que Davi demonstrava tanto medo dele?

A maçaneta começou a se mover.

Lucas segurou a porta com as duas mãos.

— Quem é você? — gritou. — Já chamamos a polícia!

Houve um breve silêncio.

Depois, o homem respondeu:

— Meu nome é César Albuquerque. Sou responsável pela manutenção desta propriedade.

Lucas franziu a testa.

— Nós compramos esta casa! Ninguém nos avisou que você viria!

— Houve um problema com as instalações antigas. Só preciso conversar.

Alice se aproximou do marido.

— Lucas, não abra.

Ele concordou.

Foi então que a voz de Davi voltou a ecoar no corredor.

— Não acreditem nele.

César respondeu imediatamente:

— Cale a boca, Davi!

O tom tinha mudado.

A tranquilidade desaparecera.

Agora havia impaciência em sua voz.

— Eles já viram o quarto — disse Davi.

Um silêncio pesado tomou conta do porão.

Alice sentiu um arrepio.

O quarto.

Aquele espaço que aparecia na planta antiga da casa, mas havia desaparecido dos documentos entregues durante a venda.

César soltou a maçaneta.

— O que você contou para eles?

Davi não respondeu.

Então César se afastou da porta e caminhou na direção do corredor escondido.

Lucas aproveitou o silêncio para observar o antigo desenho da propriedade.

— Alice, acho que entendi uma coisa.

— O quê?

— Marcos não escondeu apenas uma reforma.

Ele apontou para a planta.

— Escondeu um cômodo inteiro.

Alguns segundos depois, ouviram César discutir com Davi.

— Você deveria ter ficado onde estava!

— Eu tentei pedir ajuda durante dias — respondeu Davi.

— Você não sabe o que está fazendo.

— Sei exatamente o que aconteceu comigo.

Alice levou a mão à boca.

Lucas aproximou o ouvido da madeira.

— Davi! Você estava preso naquele quarto?

O desconhecido demorou a responder.

Então disse:

— Sim.

A palavra foi suficiente para transformar o medo de Alice em outra coisa.

Até aquele momento, ela acreditava que o homem do porão poderia ser um invasor perigoso.

Agora começava a compreender que ele talvez fosse uma vítima.

— Quem prendeu você? — perguntou Lucas.

Antes que Davi pudesse responder, César falou:

— Não escutem esse homem. Ele é um criminoso.

Davi respondeu com a voz trêmula:

— Eu cumpri minha pena. Você sabe disso.

Lucas permaneceu imóvel.

Aquela frase mudava tudo.

O homem assustador que tinham encontrado não estava tentando escapar da polícia.

Ele estava tentando escapar de alguém que não queria deixá-lo sair daquela casa.

César voltou até a porta do depósito.

— Lucas, Alice, vocês não precisam se envolver nisso. Abram e poderemos resolver tudo.

— Como sabe nossos nomes? — perguntou Alice.

César hesitou.

— Marcos me falou dos novos proprietários.

Lucas sentiu o coração acelerar.

— Então você conhece Marcos Carvalho?

— Conheço.

— Ele sabia que havia um homem preso no porão?

Nenhuma resposta.

Lucas insistiu:

— Responda!

César aproximou-se da porta.

— Vocês estão fazendo perguntas demais.

Nesse instante, um som distante atravessou a casa.

Uma sirene.

Depois outra.

Alice ergueu a cabeça.

— Lucas…

Os dois prenderam a respiração.

As sirenes ficaram mais próximas.

César pareceu percebê-las também.

Seus passos se afastaram rapidamente.

— Davi, venha comigo! — ordenou.

— Não.

— Agora!

Lucas ouviu um movimento brusco no corredor.

Depois, a voz de Davi:

— Eles já chamaram a polícia. Acabou, César.

Poucos instantes depois, alguém bateu na porta principal da residência.

— Polícia Militar! Tem alguém em casa?

Lucas começou a gritar.

— Estamos no porão! Precisamos de ajuda!

Alice também chamou pelos policiais.

Passos atravessaram o andar térreo.

Em seguida, ouviram os agentes descendo as escadas.

— Polícia! Todos permaneçam onde estão!

César tentou explicar que estava ali para realizar uma manutenção.

Mas os policiais encontraram Alice e Lucas trancados no depósito, Davi em visível estado de fragilidade e uma passagem desconhecida nos fundos do porão.

Lucas destrancou a porta somente depois que um dos agentes se identificou.

Alice saiu chorando.

— Achamos que aquele homem ia nos atacar!

Ela apontou para Davi.

— Mas ele estava pedindo ajuda…

Um policial se aproximou do desconhecido.

— Senhor, qual é o seu nome?

— Davi Monteiro.

— O senhor mora aqui?

Davi balançou a cabeça.

— Não.

Sua voz quase desapareceu.

— Eu estava sendo mantido naquele quarto.

Os policiais separaram os envolvidos e solicitaram atendimento médico para Davi.

César foi impedido de deixar o local enquanto os agentes verificavam as circunstâncias da denúncia.

O que encontraram atrás das prateleiras tornou a situação ainda mais séria.

Uma passagem estreita levava até uma porta metálica.

Atrás dela havia um cômodo sem janelas, com pouca ventilação, um colchão antigo e alguns objetos pessoais.

O lugar não parecia um depósito comum.

Havia sinais de que alguém permanecera ali por um período prolongado.

E a entrada possuía um sistema de fechamento que não aparecia na documentação entregue ao casal.

Lucas observou tudo da escada, sem se aproximar.

— Alice, nós dormimos aqui ontem…

Ela segurou a mão dele.

— E havia alguém preso debaixo dos nossos pés.

A ideia era tão perturbadora que nenhum dos dois conseguiu dizer mais nada.

Horas depois, uma investigadora da Polícia Civil chegou à residência.

Seu nome era Helena Duarte, tinha quarenta e um anos e estava acompanhando a apuração de uma denúncia de privação ilegal de liberdade.

Ela conversou separadamente com Alice, Lucas e os policiais que atenderam à ocorrência.

Depois examinou as plantas da propriedade.

— Onde vocês encontraram este desenho antigo? — perguntou.

Lucas apontou para o depósito.

— Dentro de uma caixa com documentos de manutenção.

Helena colocou as duas plantas lado a lado.

Na primeira, o espaço dos fundos aparecia identificado como área técnica.

Na segunda, não havia qualquer indicação daquele cômodo.

— O antigo proprietário se chamava Marcos Carvalho? — perguntou a investigadora.

— Sim — respondeu Lucas. — Ele nos vendeu a casa há pouco tempo.

Helena anotou a informação.

— Precisaremos ouvir o senhor Marcos e verificar quando essa alteração foi feita.

Alice olhou para a investigadora.

— A senhora acha que ele sabia?

Helena respondeu cuidadosamente:

— Ainda não podemos afirmar. Mas precisamos entender por que um espaço como esse foi omitido e quem tinha acesso a ele.

Enquanto isso, Davi recebia atendimento em um hospital.

Ele estava debilitado e precisaria de acompanhamento, mas conseguia conversar com os investigadores.

Foi durante seu depoimento que a verdadeira história começou a aparecer.

Davi Monteiro tinha quarenta e três anos.

Anos antes, cumprira pena por envolvimento em um crime financeiro.

Durante o período na prisão, participara de um programa de trabalho supervisionado que incluía organização de documentos administrativos.

Foi nessa época que percebeu inconsistências em registros de pagamentos e contratos ligados a serviços penitenciários.

Alguns documentos mencionavam despesas que não correspondiam aos serviços efetivamente prestados.

Davi não compreendia toda a dimensão das irregularidades, mas começou a suspeitar que funcionários e empresas estavam envolvidos em um esquema de corrupção.

Entre os nomes que apareciam nos registros estava o de César Albuquerque, então funcionário do sistema penitenciário.

Quando Davi deixou a prisão, procurou orientação jurídica e decidiu comunicar o que sabia às autoridades.

Ele pretendia colaborar com uma investigação formal.

Mas, antes que pudesse concluir esse processo, desapareceu.

— César me procurou dizendo que precisava conversar sobre aqueles documentos — contou Davi à investigadora Helena.

— E o que aconteceu?

Davi respirou fundo.

— Eu descobri tarde demais que ele não queria conversar.

Ele explicou que havia sido levado contra sua vontade até a casa.

César afirmara que tudo seria temporário.

Dissera que precisava impedir que certas informações chegassem aos investigadores.

Mas os dias passaram.

E Davi continuou preso.

O local pertencia a Marcos Carvalho, conhecido de César havia muitos anos.

Segundo Davi, os dois tinham acesso ao espaço escondido.

— Você conhecia Marcos? — perguntou Helena.

— Eu o vi algumas vezes. Ele sabia que eu estava lá.

A investigadora registrou o depoimento.

Ainda seria necessário confrontar aquela versão com os demais elementos de prova.

Mas a casa já oferecia indícios concretos de que Davi havia sido mantido em confinamento.

Helena também perguntou sobre os barulhos.

— Alice e Lucas ouviram pancadas durante a madrugada. Foi você?

Davi assentiu.

— Eu tentava fazer alguém me ouvir.

Ele explicou que conseguia alcançar uma parte metálica da estrutura que transmitia o som para outros pontos do porão.

Durante dias, tinha chamado por ajuda sem receber resposta.

Quando percebeu movimentação na casa, voltou a fazer barulho.

Não sabia quem estava no andar de cima.

Apenas esperava que alguém o escutasse.

— E como conseguiu sair do cômodo? — perguntou Helena.

— O fechamento estava com defeito havia algum tempo. Naquela manhã, a porta acabou cedendo.

Davi parecia emocionado ao recordar o momento.

— Eu saí procurando ajuda. Foi quando encontrei o casal.

Ele abaixou a cabeça.

— Acho que os assustei.

Helena respondeu:

— Eles não sabiam quem você era.

Davi concordou.

— Eu só queria explicar que havia outra pessoa envolvida. Mas estava com dificuldade para falar.

Agora Alice e Lucas finalmente entendiam as três pancadas, os passos e a voz abafada que tinham ouvido durante a primeira noite.

Não eram sinais de uma presença sobrenatural. Eram tentativas desesperadas de pedir socorro.

Nos dias seguintes, a investigação avançou.

Os agentes recolheram documentos, registros relacionados à propriedade e outros materiais encontrados no imóvel.

Também examinaram as informações que Davi havia fornecido sobre o antigo esquema de corrupção.

César foi investigado por sua possível participação no confinamento e por outros fatos relacionados à denúncia.

Marcos Carvalho também foi chamado a prestar esclarecimentos.

Inicialmente, o antigo proprietário afirmou que não sabia como Davi havia chegado ao imóvel.

Mas os investigadores encontraram registros que indicavam seu conhecimento das alterações feitas no porão e de visitas realizadas ao local.

Outros elementos precisariam ser analisados antes de determinar exatamente sua responsabilidade.

A venda apressada da casa passou a ser examinada com atenção.

Segundo as informações reunidas, havia a intenção de retirar Davi daquele endereço antes que os novos moradores utilizassem o porão.

Mas Alice e Lucas se instalaram na propriedade antes que isso acontecesse.

A chegada do casal havia colocado em risco um segredo que César e seus possíveis cúmplices tentavam manter escondido.

Algum tempo depois, Helena voltou a conversar com Alice e Lucas.

O casal estava hospedado temporariamente com familiares enquanto avaliava as condições de segurança da residência.

Alice parecia mais tranquila, embora ainda se lembrasse dos barulhos da primeira noite.

— Encontraram alguma coisa sobre a ligação? — perguntou Lucas.

Helena assentiu.

— O registro de emergência confirma que vocês informaram o endereço antes da interrupção.

A ligação havia caído por causa da cobertura instável de telefonia naquela parte subterrânea da casa.

Não havia evidências de que alguém tivesse provocado a falha.

— Então foi por isso que os policiais conseguiram chegar — disse Alice.

— Exatamente. As informações recebidas foram suficientes para enviar a equipe.

Lucas respirou aliviado.

Pela primeira vez, uma das partes mais assustadoras daquela manhã tinha uma explicação simples.

Mas Alice ainda precisava esclarecer uma última dúvida.

— Inspetora, por que disseram que Davi era um prisioneiro tão perigoso?

Helena respondeu:

— O passado criminal dele é real. Mas isso não significa que todas as histórias contadas sobre ele sejam verdadeiras.

Ela explicou que rumores sobre antigos detentos frequentemente misturavam fatos e exageros.

Davi havia cumprido sua pena.

E, independentemente dos crimes pelos quais fora condenado anteriormente, ninguém tinha o direito de mantê-lo preso ilegalmente.

— O que aconteceu com ele agora? — perguntou Lucas.

— Está recebendo acompanhamento e poderá colaborar com a investigação dentro das condições adequadas de proteção.

Alice abaixou os olhos.

— Quando o vimos naquele corredor, achei que ele fosse nos fazer alguma coisa terrível.

Helena respondeu:

— Vocês estavam diante de uma situação desconhecida. Mas agora sabemos que ele tentava pedir ajuda.

Algumas semanas depois, Alice e Lucas receberam autorização para retornar à casa, após a conclusão das diligências necessárias naquele momento.

O porão já não era apenas o depósito que tinham imaginado durante a primeira visita.

Havia se tornado o centro de uma investigação criminal.

O casal buscou orientação sobre as consequências da compra e sobre as informações omitidas durante a negociação.

Também decidiu realizar uma avaliação completa da propriedade antes de voltar a morar nela definitivamente.

Naquela tarde, Lucas permaneceu alguns minutos diante da porta do porão.

Alice se aproximou.

— Está pensando em quê?

— Na nossa primeira noite.

Ela segurou sua mão.

— Eu também.

Lucas olhou para a escada.

— Nós ouvimos alguém pedir ajuda e achamos que havia algo perigoso lá embaixo.

Alice respondeu baixinho:

— O perigo estava lá. Só não era quem pensávamos.

Meses depois, a investigação sobre César, Marcos e os possíveis envolvidos no esquema de corrupção ainda seguia os procedimentos legais.

Os documentos apreendidos passaram por análise, novas testemunhas foram ouvidas e as responsabilidades individuais continuaram sendo apuradas.

Não houve uma solução judicial instantânea.

Mas a descoberta do cômodo secreto permitiu reunir evidências importantes e trouxe à tona uma situação que poderia ter permanecido escondida por muito mais tempo.

Davi, por sua vez, começou a reconstruir a própria vida com apoio profissional.

Ele sabia que ainda teria um longo caminho pela frente.

Mas havia recuperado algo fundamental.

Sua liberdade.

Certo dia, Alice recebeu uma mensagem encaminhada por meio da equipe que acompanhava o caso.

Era de Davi.

« Sei que minha presença assustou vocês. Nunca quis causar medo. Só queria que alguém me escutasse. Obrigado por terem chamado a polícia. »

Alice mostrou a mensagem a Lucas.

Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes.

Depois, Lucas respondeu:

« Nós também sentimos muito pelo que aconteceu. Esperamos que você possa recomeçar sua vida em segurança. »

Alice guardou o telefone.

Ela nunca esqueceria o rosto do homem que encontrara no porão.

Mas agora, quando pensava nele, já não via um monstro.

Via alguém que havia passado muito tempo esperando que outra pessoa finalmente percebesse sua existência.

Na primeira noite naquela casa, Alice e Lucas acreditaram que os barulhos do porão anunciavam algo aterrorizante.

Quando encontraram Davi, imaginaram que estavam diante de um criminoso perigoso.

E, ao se trancarem no depósito, pensaram que ele faria qualquer coisa para alcançá-los.

Mas a verdade era exatamente o contrário.

Davi não queria atacá-los.

Queria avisá-los.

Queria mostrar o quarto escondido.

E, acima de tudo, precisava que alguém chamasse a polícia antes que César retornasse.

O homem que parecia ser o maior perigo daquela casa era, na realidade, a pessoa que mais precisava de ajuda.

E o verdadeiro segredo não estava em sua aparência assustadora.

Estava atrás de uma porta metálica que os antigos responsáveis pela propriedade tentaram esconder de todos.

FIM.

E você, o que teria feito no lugar de Alice e Lucas? Teria confiado no homem desconhecido que encontraram no porão ou esperado pela chegada da polícia? Conte sua opinião nos comentários!

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