Este gato entró desesperado en la habitación de sus dueños, pero la cámara reveló algo aterrador
PARTE 1 — O QUE SEGUIU O GATO ATÉ O QUARTO
O gato entrou desesperado no quarto de seus donos, mas, quando eles descobriram o motivo, ficaram tão aterrorizados que chamaram a polícia imediatamente.
Elena e Roberto acordaram com o barulho do despertador caindo no chão. O relógio parou exatamente às três e dezessete da madrugada. Durante alguns segundos, nenhum dos dois conseguiu entender o que havia acontecido.
— Tobias? — perguntou Roberto, ainda sonolento.
O gato estava parado ao lado da cama. Normalmente, depois de derrubar alguma coisa, ele corria pelo quarto como se estivesse orgulhoso de sua travessura. Naquela noite, porém, não miava nem se movia. Seu corpo permanecia encolhido, os pelos estavam arrepiados e seus olhos brilhavam na escuridão.
Elena acendeu o abajur.
— O que foi, meu amor?
Tobias não olhou para ela. Continuou encarando a porta do quarto, respirando rapidamente. Elena estendeu a mão para acariciá-lo, mas o animal recuou e soltou um som baixo, semelhante a um rosnado.
— Nunca o vi assim — disse ela.
Roberto se sentou na cama e olhou para a porta. Antes de dormirem, ele mesmo havia girado a chave, pois a fechadura estava velha e às vezes abria com o vento. Por isso, quando a maçaneta começou a se mover lentamente, Roberto sentiu o sono desaparecer por completo.
— Tem alguém aí? — perguntou.
Não houve resposta.
A maçaneta girou até o fim, mas a porta permaneceu fechada. Tobias recuou mais alguns passos e saltou sobre a cama, escondendo-se atrás de Elena.
— Você trancou mesmo? — ela perguntou.
— Tenho certeza.
Roberto se levantou, mas, antes que alcançasse a porta, a chave girou sozinha dentro da fechadura.
A porta se abriu alguns centímetros.
Um vento gelado atravessou o quarto. Tobias soltou um miado desesperado e enterrou as unhas no lençol. Roberto puxou a porta e acendeu a luz do corredor.
Não havia ninguém.
Ele examinou o corredor, a escada e a entrada dos outros cômodos. Tudo parecia normal. A porta principal continuava trancada, e as janelas estavam fechadas. Mesmo assim, Tobias acompanhava alguma coisa invisível com os olhos. Seu olhar se moveu lentamente do corredor para o interior do quarto, como se alguém tivesse acabado de passar por Roberto.
O gato virou a cabeça em direção ao canto perto do armário e começou a rosnar.
Elena sentiu um arrepio.
— Roberto, feche a porta.
— Não há ninguém aqui.
— Então por que ele está olhando daquele jeito?
Roberto voltou para o quarto e trancou a porta novamente. Tobias não se acalmou. Continuava encarando o canto escuro, enquanto sua cauda batia nervosamente contra o colchão.
Elena se lembrou das câmeras de segurança instaladas na semana anterior. Depois de alguns objetos desaparecerem da cozinha, Roberto havia colocado uma câmera na sala, outra perto da entrada e uma terceira no corredor dos quartos. Eles suspeitavam que algum animal estivesse entrando por uma janela, mas nunca encontraram nada.
Ela pegou o celular e abriu o aplicativo.
— Vamos ver como Tobias chegou aqui.
A gravação do corredor mostrava a casa mergulhada em silêncio. Às três e dezesseis, Tobias apareceu no fim do corredor. O gato caminhava devagar, olhando para trás a cada dois passos.
De repente, ele parou.
As luzes da imagem piscaram, e uma sombra surgiu perto da escada.
No início, Elena pensou que fosse uma falha da câmera. A forma era alta demais para ser uma pessoa e parecia curvada sob o teto. Não era possível distinguir seu rosto nem suas roupas. Era apenas uma massa escura e alongada, imóvel no fundo do corredor.
Tobias arqueou o corpo.
A figura deu um passo à frente.
O gato correu na direção do quarto, mas a sombra também começou a avançar. Seus movimentos eram estranhos, como se cada parte do corpo se movesse em um ritmo diferente. Em poucos segundos, ela atravessou metade do corredor.
Tobias arranhou a porta fechada e olhou diretamente para a câmera. Logo depois, saltou contra a maçaneta várias vezes, até conseguir abrir a porta.
— Foi assim que ele entrou — murmurou Roberto.
Elena não respondeu. Continuava olhando para a gravação.
Quando Tobias desapareceu dentro do quarto, a figura parou diante da porta. Permaneceu ali durante alguns segundos e, em seguida, levantou lentamente a cabeça.
A imagem ficou distorcida.
Por um único instante, a câmera conseguiu registrar algo parecido com um rosto. Não havia olhos, nariz ou boca. A superfície era lisa e pálida, como uma máscara sem qualquer abertura.
Então a figura entrou no quarto.
Elena pausou o vídeo.
— Ela entrou aqui — sussurrou.
Roberto olhou para o canto que Tobias ainda observava. Não havia ninguém, mas a cortina próxima ao armário começou a se mover, embora a janela estivesse fechada.
— Ligue para a polícia — disse ele.
Enquanto Elena fazia a ligação, Roberto pegou um taco de madeira atrás da porta. A atendente pediu que permanecessem no quarto e garantiu que uma viatura estava a caminho.
De repente, a luz do abajur se apagou.
Tobias saltou da cama e correu até o espelho. Em vez de atacar o canto, começou a arranhar o próprio reflexo. Elena apontou a lanterna do celular para ele.
— Tobias, pare!
O gato não obedeceu. Rosnava para o espelho como se houvesse alguma coisa do outro lado.
Roberto se aproximou e, por um momento, viu uma silhueta refletida atrás de si. Virou-se rapidamente, erguendo o taco, mas encontrou apenas Elena junto à cama.
— O que aconteceu? — ela perguntou.
— Achei que tivesse visto alguém.
Três batidas ecoaram do lado de fora.
Os dois ficaram imóveis.
— Polícia! — anunciou uma voz masculina. — Abram a porta.
Elena sentiu alívio, mas Roberto olhou pela janela antes de tocar na fechadura. Não havia nenhuma viatura em frente à casa. A rua estava completamente vazia.
— Não abra — ele sussurrou.
A voz tornou a chamar:
— Senhor Roberto, somos da polícia. Sua esposa ligou para nós.
Elena cobriu a boca. Durante a ligação, ela não havia informado o nome de Roberto.
Tobias abandonou o espelho e se posicionou diante da porta, rosnando.
— Como sabe meu nome? — perguntou Roberto.
O silêncio durou vários segundos.
Quando a resposta finalmente veio, a voz estava diferente. Já não parecia pertencer a um policial.
Parecia a voz do próprio Roberto.
— Porque eu sou você.
Algo golpeou a porta com tanta força que a madeira estalou. Elena gritou, e Roberto empurrou uma cômoda contra a entrada. Do lado de fora, a coisa começou a repetir o nome dele, cada vez com mais perfeição.
As sirenes verdadeiras surgiram ao longe. Assim que as luzes vermelhas e azuis iluminaram as janelas, as batidas cessaram.
Poucos minutos depois, quatro policiais entraram na casa. Revistaram todos os cômodos, o quintal e o corredor, mas não encontraram qualquer invasor. Não havia marcas nas janelas nem sinais de arrombamento.
Um dos agentes assistiu à gravação várias vezes.
— Quero uma cópia desse vídeo — disse ele. — Vocês têm algum inimigo? Alguém que poderia estar tentando assustá-los?
— Aquilo não era uma pessoa — respondeu Elena.
O policial não discutiu. Pediu que o casal permanecesse na sala enquanto sua equipe fazia uma segunda busca. Tobias não queria sair do quarto, mas Elena o carregou nos braços.
Quando passaram diante do espelho, o gato começou a se debater novamente.
Roberto parou e observou o reflexo.
Elena estava ao lado dele, segurando Tobias. Dois policiais conversavam no corredor. Tudo parecia normal, até Roberto perceber uma terceira silhueta parada atrás do grupo.
Dessa vez, ela possuía um rosto.
Era o rosto de Roberto.
A cópia sorriu dentro do espelho e levou um dedo aos lábios, pedindo silêncio.
Roberto se virou, mas não havia ninguém atrás deles.
Naquele instante, um policial apareceu no alto da escada.
— Encontramos alguém dentro da casa! — gritou.
Elena apertou Tobias contra o peito.
Do andar de cima, passos lentos começaram a descer. Primeiro surgiram dois sapatos iguais aos de Roberto. Depois, uma calça idêntica à que ele usava. Quando o homem finalmente mostrou o rosto, Elena sentiu as pernas perderem as forças.
Diante dela havia outro Roberto.
E Tobias começou a rosnar para os dois.
PARTE 2 — QUAL DELES ERA O VERDADEIRO ROBERTO?
Durante alguns segundos, ninguém conseguiu se mover. Elena olhava para os dois homens diante dela, procurando qualquer diferença que pudesse revelar qual deles era o verdadeiro Roberto.
Os dois tinham o mesmo rosto, a mesma altura e as mesmas roupas. Até o pequeno corte na sobrancelha esquerda, resultado de um acidente ocorrido anos antes, aparecia nos dois.
Os policiais levantaram suas armas.
— Ninguém se mexa! — ordenou um deles.
O Roberto que estava ao lado de Elena ergueu as mãos imediatamente.
— Eu sou o marido dela. Essa coisa apareceu lá em cima!
— Ele está mentindo — respondeu o homem na escada, usando exatamente a mesma voz. — Eu estava escondido no quarto de hóspedes. Foi ele quem tentou me matar.
Elena recuou, ainda segurando Tobias. O gato alternava o olhar entre os dois, mas continuava rosnando sem deixar claro para qual deles dirigia sua ameaça.
O agente responsável pela equipe, chamado Marcos, mandou que os dois se ajoelhassem em lados opostos da sala. Em seguida, aproximou-se de Elena.
— Preciso que a senhora identifique seu marido.
— Eu não sei — ela confessou. — O homem ao meu lado estava comigo no quarto, mas a gravação mostrou aquela coisa entrando lá. Ela pode ter tomado o lugar dele sem que eu percebesse.
Marcos observou os dois Roberto.
— Vamos fazer algumas perguntas.
Elena tentou pensar em algo que somente seu marido verdadeiro saberia. Perguntou onde eles haviam se conhecido, qual filme assistiram no primeiro encontro e o que Roberto lhe dissera no dia do casamento.
Os dois responderam corretamente.
Não apenas conheciam os fatos, mas também se lembravam de pequenos detalhes. Ambos disseram que Elena derrubara café na própria blusa durante o primeiro encontro. Ambos sabiam que choveu no casamento e que os dois haviam dançado na cozinha quando todos os convidados foram embora.
— Ele está copiando minhas memórias — acusou o Roberto que estivera no quarto.
— Não — respondeu o outro. — É você quem está copiando as minhas.
Marcos separou os dois e pediu que fossem levados para cômodos diferentes. Um permaneceu na sala, vigiado por dois agentes. O outro foi conduzido até a cozinha.
Elena colocou Tobias no chão, esperando que ele reconhecesse o verdadeiro dono. O gato caminhou lentamente até o centro da sala. Primeiro, aproximou-se do Roberto ajoelhado perto do sofá e cheirou sua mão.
O homem sorriu.
— Está tudo bem, Tobias. Sou eu.
O gato não reagiu. Virou-se e caminhou até a entrada da cozinha, onde o segundo Roberto aguardava. Antes que pudesse se aproximar, as luzes da casa piscaram.
Tobias arqueou o corpo e soltou um grito agudo.
Em seguida, atacou o Roberto da sala.
O homem tentou proteger o rosto enquanto o gato cravava as unhas em seu braço. Dois policiais afastaram Tobias e o prenderam dentro da caixa de transporte.
— Ele reconheceu a criatura — disse Elena. — Esse não é meu marido.
— Elena, não faça isso! — gritou o homem ferido. — Tobias está assustado. Você sabe que ele ataca quando entra em pânico!
O outro Roberto apareceu na porta da cozinha.
— Levem essa coisa para longe dela.
Os policiais algemaram o homem atacado pelo gato. Enquanto era conduzido para fora, ele olhou fixamente para Elena.
— Você está cometendo um erro. Veja as câmeras novamente. Não confie nele só porque Tobias me atacou.
O homem que permanecera na cozinha abraçou Elena.
— Acabou — sussurrou. — Agora estamos seguros.
Mas Tobias começou a se debater dentro da caixa assim que os dois se tocaram.
Marcos decidiu levar ambos à delegacia até que pudessem esclarecer o que estava acontecendo. Antes de saírem, um dos agentes chamou Elena até o corredor.
— Encontramos isto no quarto de hóspedes.
Ele mostrou um celular antigo escondido debaixo da cama. O aparelho não pertencia a Elena nem a Roberto. Apesar de não possuir chip, estava ligado e continha dezenas de fotografias do casal.
As imagens haviam sido tiradas dentro da casa, em diferentes horários. Algumas mostravam Elena cozinhando. Outras mostravam Roberto dormindo ou Tobias sentado diante do corredor.
A fotografia mais recente havia sido registrada poucos minutos antes da chegada da polícia.
Nela, os dois Roberto estavam ajoelhados na sala.
— Quem tirou essa foto? — perguntou Elena.
— Ainda não sabemos — respondeu o agente.
Elena deslizou o dedo pela galeria e encontrou um vídeo gravado naquela mesma madrugada. A filmagem começava no corredor do andar superior. Alguém segurava o celular enquanto observava Tobias caminhar em direção ao quarto.
Era a mesma cena registrada pela câmera de segurança, porém vista de outro ângulo.
A figura sem rosto apareceu atrás do gato. Quando passou diante de um espelho, seu corpo começou a mudar. Os braços encurtaram, as costas ficaram retas e uma cabeça humana surgiu sobre os ombros.
A transformação terminou segundos antes de ela entrar no quarto.
A criatura assumiu a aparência de Roberto.
Elena sentiu o estômago se revirar.
— Precisamos descobrir qual deles saiu daquele quarto comigo.
Ela abriu o aplicativo das câmeras e voltou à gravação do momento em que a polícia entrou na casa. Na imagem, Elena apareceu saindo do quarto com Tobias nos braços. Roberto caminhava ao lado dela.
Por alguns segundos, o rosto dele estava visível.
Depois, exatamente quando passaram diante do espelho, a gravação apresentou uma interferência. A imagem voltou apenas quando os policiais encontraram o segundo Roberto no andar superior.
— A câmera não mostra a troca — disse Marcos.
— Talvez não tenha ocorrido nenhuma troca — respondeu Elena. — Talvez a coisa já estivesse comigo desde o quarto.
Na delegacia, os dois homens foram colocados em salas separadas. Suas impressões digitais eram idênticas. O reconhecimento facial indicava a mesma identidade, e até uma cicatriz antiga no ombro direito estava presente nos dois corpos.
Um médico coletou amostras de sangue. O resultado preliminar deixou todos ainda mais confusos: os dois possuíam o mesmo tipo sanguíneo e o mesmo DNA.
— Isso é impossível — declarou Marcos.
Elena permaneceu sentada entre as duas salas, com a caixa de Tobias sobre o colo. O gato estava mais calmo, mas não desviava os olhos da porta onde o homem atacado se encontrava.
Marcos colocou diante dela os objetos retirados dos bolsos de ambos. Cada Roberto carregava uma carteira, uma aliança e uma chave de casa. Tudo parecia duplicado perfeitamente.
Havia apenas uma diferença.
No bolso do Roberto atacado por Tobias, os agentes encontraram o despertador quebrado que havia caído no quarto. Os ponteiros continuavam parados às três e dezessete.
— Por que ele levaria isso? — perguntou Elena.
— Ele disse que pegou o relógio para provar quando tudo começou — explicou Marcos.
No bolso do outro Roberto, encontraram uma pequena mecha de pelos de Tobias.
Elena a reconheceu imediatamente. Dias antes, havia guardado aqueles pelos dentro de um medalhão, depois de o gato passar por uma cirurgia. O medalhão ficava escondido em uma gaveta do quarto.
— Meu marido sabia disso — disse ela. — Talvez tenha pegado para que Tobias reconhecesse o cheiro.
Marcos franziu a testa.
— Ou talvez a criatura tenha usado os pelos para enganar o animal.
Pouco depois, todas as luzes da delegacia se apagaram. Alarmes dispararam, e gritos vieram do corredor. Tobias começou a arranhar a porta da caixa.
Quando a energia retornou, uma das salas estava vazia.
O Roberto atacado pelo gato havia desaparecido, apesar de continuar algemado e de a porta estar trancada por fora. No chão, restava apenas o despertador quebrado.
Os policiais concluíram que ele era a criatura e organizaram uma busca pela região. O outro Roberto foi liberado, embora Marcos insistisse para que Elena não voltasse para casa naquela noite.
O casal seguiu para um hotel, acompanhado por Tobias. Roberto dirigiu em silêncio, enquanto Elena observava o gato no banco traseiro.
Tobias não rosnava mais.
Estava encolhido no canto da caixa, tremendo e evitando olhar para Roberto.
Ao chegarem ao hotel, Elena recebeu uma mensagem de um número desconhecido. Era uma fotografia da sala de interrogatório vazia.
Logo depois, chegou um áudio.
Ela reconheceu a voz do homem que havia desaparecido:
— Elena, o gato não me atacou porque eu era a criatura. Ele me atacou porque ela colocou os pelos dele no bolso do outro Roberto. Foi assim que confundiu seu cheiro. Verifique o reflexo antes que seja tarde.
Elena ergueu os olhos.
Roberto estava parado diante do espelho do hotel.
Seu corpo aparecia normalmente, mas seu rosto não estava refletido.
No lugar dele havia apenas uma superfície pálida, lisa e sem olhos.
Sem nariz.
Sem boca.
Então, ainda olhando para o espelho, Roberto perguntou:
— Quem mandou essa mensagem?
PARTE 3 — O ÚLTIMO REFLEXO
Elena desligou a tela do celular e tentou esconder o medo.
— Era o gerente do hotel — mentiu. — Ele queria confirmar nossa reserva.
Roberto se virou lentamente. Seu rosto parecia normal fora do espelho, mas, no reflexo, continuava sendo uma superfície lisa e pálida.
— Você está mentindo — disse ele.
Tobias soltou um rosnado dentro da caixa de transporte.
Elena recuou em direção à porta, porém Roberto se colocou no caminho. Ainda tinha a aparência de seu marido, inclusive o mesmo jeito de inclinar a cabeça quando desconfiava de alguma coisa.
— Onde está o verdadeiro Roberto? — ela perguntou.
A criatura permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois sorriu.
— Você o entregou à polícia.
Elena pegou o celular e tentou ligar para Marcos, mas Roberto segurou seu braço.
— Não faça isso.
Sua voz já não era completamente humana. Por baixo do tom conhecido, havia outras vozes repetindo as mesmas palavras com pequenos atrasos.
Tobias começou a se debater. A caixa caiu de lado, e a porta se abriu. O gato saltou contra a criatura, cravando as unhas em seu rosto.
Roberto gritou e arremessou o animal contra a cama. Por um instante, sua pele pareceu ondular. O rosto de Roberto desapareceu, revelando a mesma máscara sem olhos vista na gravação.
Elena aproveitou para correr.
Saiu do quarto com Tobias nos braços e começou a bater nas portas do corredor, pedindo ajuda. A criatura veio atrás dela, mas as câmeras e os espelhos instalados nas paredes do hotel faziam sua aparência mudar sem controle. Em cada reflexo, ela assumia um rosto diferente.
Às vezes era Roberto. Em outros momentos, parecia Elena ou algum hóspede que observava a confusão. No espelho próximo ao elevador, surgiu com o rosto de uma criança desconhecida.
Os hóspedes começaram a sair dos quartos.
Diante de tantas testemunhas, a criatura parou.
Então voltou a assumir a aparência de Roberto e apontou para Elena.
— Minha esposa está tendo uma crise! — gritou. — Chamem uma ambulância!
Elena abraçou Tobias com força.
— Esse homem não é meu marido. Olhem para o espelho!
Todos se viraram para a parede.
O reflexo da criatura não tinha rosto.
Uma mulher gritou, e o corredor mergulhou em pânico. A criatura avançou sobre Elena, mas Tobias pulou de seus braços e atacou seus olhos, ou o lugar onde deveriam estar. Os dois caíram contra um grande espelho.
O vidro se quebrou.
A criatura soltou um som tão agudo que as luzes do corredor explodiram. Em seguida, desapareceu na escuridão.
Quando a iluminação de emergência foi ativada, Elena encontrou apenas Tobias entre os pedaços de vidro. Não havia sangue nem sinal de Roberto.
Marcos chegou ao hotel minutos depois. Elena contou tudo, incluindo a mensagem enviada pelo homem desaparecido da delegacia.
— Talvez ele ainda esteja vivo — disse ela. — Talvez seja o verdadeiro Roberto.
Os policiais rastrearam o celular usado para enviar o áudio. O sinal vinha da antiga casa do casal.
Elena insistiu em acompanhar a equipe. Marcos tentou convencê-la a permanecer no hotel, mas ela se recusou. Tobias também não quis ficar. Assim que colocaram a caixa no carro, ele entrou sem resistir e manteve os olhos fixos na estrada.
Ao chegarem à casa, encontraram a porta principal aberta.
Todas as câmeras estavam ligadas, embora a eletricidade tivesse sido cortada. Nas telas da sala, a mesma gravação se repetia: a criatura caminhando atrás de Tobias às três e dezessete.
Marcos e dois agentes subiram para verificar os quartos. Elena ficou na sala com Tobias.
O gato aproximou-se do espelho e cheirou a moldura. Depois começou a arranhar a parede.
— Há alguma coisa atrás dele — disse Elena.
Os policiais retiraram o espelho e encontraram uma pequena abertura. Dentro da parede havia fotografias de antigos moradores da casa. Em todas elas, uma pessoa aparecia duas vezes.
Em uma fotografia de família, havia duas mães idênticas. Em outra, dois meninos com o mesmo rosto estavam parados em lados opostos de um quarto.
No verso da imagem mais antiga, alguém havia escrito:
“Ela não possui um rosto. Por isso, rouba o nosso.”
Marcos encontrou também páginas de um diário. A antiga proprietária afirmava que a criatura entrava na casa pelos reflexos e copiava não apenas a aparência, mas também as lembranças de suas vítimas. Depois de substituir alguém, levava o original para um espaço escondido atrás dos espelhos.
Tobias atravessou o corredor e parou diante do espelho do quarto de hóspedes.
Quando Elena se aproximou, ouviu batidas do outro lado.
— Roberto?
— Elena! — respondeu uma voz abafada. — Não olhe diretamente para o reflexo!
Os agentes quebraram o espelho. Em vez da parede, encontraram uma passagem escura que não aparecia na planta da casa. Roberto estava caído lá dentro, ainda algemado. O corte feito por Tobias permanecia em seu braço.
Elena correu para abraçá-lo.
— Eu achei que tivesse perdido você.
— Ela queria que você acreditasse nisso — respondeu Roberto. — Tobias me atacou porque percebeu que a criatura havia colocado o cheiro dele no outro corpo. Ele não estava tentando escolher entre nós. Estava marcando o verdadeiro para que pudesse me encontrar depois.
Tobias aproximou-se e encostou a cabeça na mão ferida de Roberto. Dessa vez, não rosnou. O gato começou a ronronar, e Elena finalmente teve certeza de que encontrara seu verdadeiro marido.
Uma risada ecoou dentro da passagem.
A criatura surgiu atrás deles com o rosto de Elena.
— Vocês não podem me impedir — disse ela.
Marcos ordenou que todos saíssem. Enquanto os policiais recuavam, a criatura trocava de rosto a cada passo. Tornou-se Roberto, Marcos e depois Elena novamente.
Tobias permaneceu diante do espelho quebrado.
Ele não atacou a criatura. Em vez disso, empurrou com a pata um dos grandes pedaços de vidro, fazendo-o cair virado para baixo.
A criatura gritou.
Roberto entendeu o que estava acontecendo.
— Ela precisa dos reflexos para permanecer aqui!
Os policiais cobriram todos os espelhos com lençóis. Elena desligou as telas das câmeras, enquanto Roberto fechava as portas dos armários que possuíam vidro. A cada superfície refletora escondida, o corpo da criatura ficava mais fraco e transparente.
Restava apenas o pequeno espelho dentro do medalhão de Elena.
A criatura correu em sua direção, tentando alcançá-lo. Elena arrancou o medalhão do pescoço e o arremessou dentro da passagem.
Marcos disparou contra a moldura do último espelho.
O vidro se partiu, e a criatura foi puxada para dentro da escuridão. Seu rosto mudou dezenas de vezes antes de desaparecer. O último rosto que mostrou foi o de Roberto.
Os policiais fecharam a passagem e destruíram todos os fragmentos encontrados na casa. Pouco depois, o imóvel foi demolido por ordem das autoridades. Sem os espelhos e sem o corredor que a mantinha ligada ao mundo, a criatura nunca mais apareceu.
Elena, Roberto e Tobias mudaram-se para outra cidade. As análises confirmaram que o homem resgatado era humano, e as marcas das unhas de Tobias permaneceram em seu braço como lembrança daquela noite.
Meses depois, às três e dezessete da madrugada, o despertador de Elena caiu no chão.
Ela abriu os olhos assustada.
Tobias estava sentado ao lado da cama, mas não parecia com medo. O gato apenas empurrou o relógio com a pata, deitou-se entre o casal e voltou a dormir.
Dessa vez, não havia nenhuma sombra no corredor.
A ameaça havia terminado, e Tobias finalmente conseguira salvar sua família.
Se você estivesse no lugar de Elena, teria confiado na reação de Tobias ou escolheria um dos dois Roberto pelas próprias lembranças? E em qual momento você percebeu quem era o verdadeiro Roberto? Deixe sua opinião nos comentários.
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